Resenha do Livro: Véspera de Carla Madeira – Crítica e Reflexões

Preciso dizer que embora seja fã de carteirinha de “A natureza da mordida”,  e uma admiradora da obra “Tudo é Rio” a qual Carla descreve com tanta sensibilidade histórias tão possíveis de acontecer nos mais diversos lugares, me vi ansiosa para ler Véspera, que por sinal era a ultima das três obras mais famosas da autora que me faltava ler.

O livro conta a história de Custodia que sonhava em ser mãe e Augusto, seu marido, que em meio a um casamento fadado ao fracasso devido ao alcoolismo de Augusto e todo o desgosto que isso trazia a Custodia, conseguem após muito tempo engravidar de gêmeos, o que Custódia via como “resposta de muitas orações”. Em meio ao sonho realizado, Custodia se vê imersa em seu fanatismo religioso que a acompanhou em todo seu sofrimento de espera, em contrapartida, Augusto seguia tomado de desgosto pelo afastamento decretado por sua esposa durante toda a gestação, ate que no dia do nascimento das crianças resolve lhe pregar uma peça.

O que era pra ser uma brincadeira sem graça alguma, fez dos dias de Custodia um eterno medo de que algo desse errado. Seus filhos que deveriam se chamar Pedro e Paulo, recebem o nome de Caim e Abel, e como já se sabe, a história original carrega por si só uma tragedia anunciada. E o que acontece? Continue lendo que eu te conto, mas prometo que colocarei um alerta de spoiler quando chegar essa hora!

A leitura é poética, como tudo que é escrito por Carla. Amei quase tudo da história, o fato de ser contado em dois tempos é algo que me prendeu.

No primeiro capitulo, estamos no momento atual do história, onde conhecemos a esposa de um dos dois irmãos. Já no segundo, passamos a conhecer a história como começou, quem é Custodia, Augusto, seus filhos e todo o enredo da história. E assim se segue, de trás pra frente, e é assim que Carla nos mostra, do seu jeito, que as vezes, os fins justificam os meios.

A cada capitulo conhecemos mais os personagens, e a partir dai a expectativa para o desenrolar dos dois tempos da história cresce cada vez mais. No começo do livro, eu demorei para me manter atenta, pausei a leitura e retomei meses depois. Ao retomar percebi que de fato não é meu livro favorito da autora, embora seja muito bem escrito e traga reflexões valiosas, como tudo o que Carla escreve.

Vou contar aqui a história em um pouco mais de detalhes, então, se não quer saber o desfecho, acho melhor você encerrar sua leitura por aqui. Se optar por continuar, não diz que eu não avisei, hein?

Bom, como disse o nome dos irmãos ter sido trocado ao serem registrados foi só o inicio da tragédia. Ao irem para a escola, os meninos se viram sendo pessoas diferentes pela primeira vez. Antes de irem, Custodia se referia a eles como Abel e Abelzinho, ao serem matriculados isso não seria mais possível.

A mãe, tenta a todo custo não fazer essa “separação”, vai diversas na escola com objetivo de manter os meninos sempre em pé de igualdade, mesma sala, mesma nota, mesma personalidade, mas com o passar do tempo, eles vão crescendo e entendendo sua individualidade enquanto Caim e Abel.

Em meio a infância eles são marcados por uma tragédia, um amigo em comum morre e é nesse momento em que se inicia um afastamento entre os irmãos. Com o passar dos anos esse afastamento se atenua, Caim segue sendo o filho perfeito, notas boas, amigos e elogiado pelos professores.

Abel por sua vez, vai mal na escola é introspetivo e conta com um professor que não faz rodeios quando o assunto é lembra-lo de sua falta de desenvoltura escolar. Neste ponto da história conhecemos Veneza, e descobrimos então que se trata da primeira paixão de Abel, e que por sua vez tem como melhor amiga Vedina.

Enquanto estamos conhecendo esse lado da história, também estamos acompanhando Vedina, que no salto de tempo já é mãe, e em uma manhã qualquer, no trajeto para levar filho de 5 anos para escola em meio a um surto devido as travessuras do menino, para em um acostamento qualquer e o deixa ali. Ela se arrepende em questão de minutos, porém, quando retorna ele já não está la.

Voltamos ao ponto da história em que Abel se apaixona por Veneza, porém essa paixão nunca fora anunciada. E como podem imaginar, Caim também se apaixona por ela, mas diferente do caminho que você possa imaginar que essa história possa estar levando, não se trata de um triangulo amoroso, visto que Caim é correspondido e Abel não. Até uma noite em que tudo muda.

A pedido de Custodia, Veneza chama Abel para a festa da faculdade dela e de Caim, e em um determinado momento, em meio a bebedeira na pista de dança, Veneza percebe que Abel não tira os olhos ela, nesse momento ela resolve dançar pra ele, chama-lo pra pista e em meio a isso, assim que ele a toca, ela o afasta e ao se virar se da conta de que Caim estava atrás dela. Ela não sabe o que ele viu, não falam sobre isso.

Abel vai embora e no caminho esbarra com Vedina e assim se inicia todo o envolvimento dos dois, pois como uma forma de aliviar todo o sentimento ensandecido que tinha por Veneza, a beija e vai embora.

Toda essa tensão, a falta de não falar sobre o que aconteceu, fez com o que Veneza tomasse distancia da casa de Caim e Abel, embora seguisse com seu relacionamento com Caim e fizessem planos de morar juntos.

Voltamos então a Vedina, que no tempo atual segue com medo por ter perdido o filho que a essa altura sabemos que é de Abel. Ela se pergunta em como ele irá reagir ao saber o que ela fez, e é nesse momento também que descobrimos que a relação dos dois é repleta desafeto, ele não demonstra gostar dela e ela sabe o porque.

As histórias se cruzam no momento em que no passado Vedina percebe os sentimentos de Abel por Veneza e ao confronta-lo, ele reage a agredindo. No ato ela já está gravida e opta por ficar nessa relação mesmo que Veneza tente alerta-la e tira-la disso.

Ela segue em um relacionamento infeliz. Veneza segue com Caim, e juntos tem uma filha. E sobre os dias atuais, Vedina não encontra seu filho, porém, a pessoa que o encontra, observou ela deixando o menino na rua, a busca nos jornais e todo o sofrimento da mãe e do pai, e opta por não devolve-lo a família.

E foi nesse ponto que o livro me perdeu e ainda bem que já estávamos no fim. E acho que é esse o efeito dos livros da autora, cada um a sua maneira. Não me entenda mal, eu não esperava um final feliz, como conhecedora das outras obras da autora, tenho consciência de que seus desfechos nos levam mais para o caminho de reflexão de que a vida é assim, nem sempre terá um desfecho sendo positivo ou não, contudo, diferente das outras outras obras, esse, me deixou com uma sensação de “é isso? a criança não volta aos pais?”, ou “todo o sofrimento, ainda não tem fim?” das reflexões que tive sobre o livro, ficam:

  • As vésperas dos acontecimentos são tão importantes quanto os acontecimentos em si.
  • As vezes buscamos explicar o inexplicável e quanto a isso não tem o que ser feito.

Minha nota para esse livro é: ⭐⭐⭐⭐

Escrito por

Paulista com origens pernambucanas, aquariana com lua em libra e ascendente em gêmeos, etâ menina indecisa e faladora. Jornalista e barista de formação, "manjo" de SEO e Link Building também

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